agosto 30, 2010

Discutível sintonia.

Pego-me lembrando as lembranças de você, aquilo que consegue vencer o tempo e involuntariamente permanece no meu subconsciente. Houve tempos que evitava estas lembranças, talvez pelo fato de saber que nada disso voltaria, ou então por preferir não ficar imaginando como seria o agora com você. 
Mas agora não, agora a recordação vem trazendo um brinde grátis: um riso nostálgico e os pensamentos de uma época boa. Não me importa mais como acabou, ainda que eu lembre de cada detalhe, cada gesto que ilustrava de forma atípica a sua partida. Nossos olhares aflitos se encontravam e pediam o óbvio, mas apenas o abraço suficientemente marcante selou essa nossa despedida. 


O nosso tempo juntos sempre foi diferente de tudo aquilo que nós já pudemos experimentar. Nossos gostos e opiniões opostas se aproximando cada vez mais, quebrando qualquer tipo de barreira. As noites chuvosas e hilárias que passamos acompanhados de coca-cola e videogame, as ideias divergentes, os conceitos completamente antagônicos. Entretanto, algo nos conectava. O amor? Creio que não. Poderia vir a ser, um dia, num futuro bem distante sem nenhum tipo de certeza. Talvez uma sintonia, que estranhamente conseguia diminuir esta distância ideológica. Mas eu era imatura demais para perceber tudo isso e ir levando como algo sem esse grau tão elevado de importância que o amor carrega consigo. Então, tive que agüentar as conseqüências, a dor impiedosa da partida, do buraco aberto no peito, do chão arrancado de debaixo dos pés. Foi neste tempo em que as lembranças resgatavam unicamente o vácuo, o escuro, o nada.


Até que essas lembranças começaram a resgatar outras coisas também. Ainda bem. Dizem que o responsável por isso é o tempo, que o tempo cura tudo. Não acho. O tempo não cura nada, ele não fez graduação em medicina, nem em psicologia. Ele apenas consegue habilidosamente deslocar o incurável do centro das atenções. E por vezes, isso já é o suficiente. Então o que sobra é a recordação mais gostosa e divertida, trazendo aquela esperança quase que eterna de receber o e-mail informativo sobre o dia e o horário que deverei buscá-lo no aeroporto.

Válvula de escape.


Sempre achei fantástica a arte de escrever, a capacidade de traduzir no papel teus pensamentos, opiniões, sentimentos, experiências. Tenho como influências autores consagrados como Clarice Lispector, Vinícius de Moraes e Cecília Meirelles. Entretanto, a finalidade minha aqui passa longe das obras maravilhosas de tais autores. Pretendo simplesmente libertar os pensamentos que, confinados na minha mente conturbada, clamam por uma ‘válvula de escape’, que permita a tradução dos mesmos em letras, palavras, parágrafos, numa expressão sólida daquilo que se passa neste confinamento.

Os dedos passam apressadamente pelo teclado, tentando redigir tudo que os afoitos pensamentos querem entender, assimilar. Minhas memórias engavetadas fazem barulho, e então as palavras vão se formando, as ideias vão se fechando, até que outros pensamentos começam a emergir e a procurar a tal válvula. É um ciclo vicioso. Vou borrifando ao vento aquilo que minhas mãos não conseguem escrever e, por hora, isso basta.